Pubicado em: seg, ago 29th, 2016

“Aquarius” no epicentro do debate político

Uma semana antes da estreia de Aquarius (Brasil/França, 2016), o filme do cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho permanece no epicentro de um debate político. A classificação indicativa outorgada pelo Ministério da Justiça e Cidadania ao longa-metragem foi de 18 anos, informada na portaria 105, publicada no Diário Oficial da União no dia 12 deste mês, e ratificada, após “pedido de reconsideração indeferido”, no despacho publicado no DOU do dia 22. Com a decisão do governo interino de rotular Aquarius “não recomendado para menores de dezoito anos” por conter “sexo explícito e drogas”, a repercussão explodiu na semana que marca o início do julgamento da presidenta eleita (e afastada) Dilma Rousseff no Senado.

É importante mencionar o rito de impeachment nesse contexto. Muitos profissionais do setor cinematográfico, jornalistas e cidadãos comuns brasileiros e veículos de imprensa estrangeirosacreditam que a classificação indicativa máxima seria uma retaliação aos protestos feitos por Kleber Mendonça, pela produtora Emilie Lesclaux e pelo elenco do filme no tapete vermelho do Festival de Cannes em maio deste ano. “O mundo não pode aceitar esse governo ilegítimo”, “Salvem a democracia brasileira” e “Um golpe de estado aconteceu no Brasil” eram alguns dos dizeres impressos nos cartazes empunhados pela equipe.

 

O Ministério da Justiça e Cidadania não se pronunciou sobre o assunto. Uma das alegações é a de que Aquarius apresentaria “situação sexual complexa” com cena de “sexo grupal”. No manual da classificação indicativa, “situação sexual complexa/de forte impacto” se traduz em “sexo com incesto, sexo grupal, fetiches violentos e pornografia em geral”. Produções brasileiras recentes, a exemplo de Tatuagem (2013), do pernambucano Hilton Lacerda; Bruna Surfistinha (2011), de Marcus Baldini, e Era uma vez eu, Verônica, de Marcelo Gomes (2012), que apresentam situações semelhantes em suas narrativas, foram liberadas a partir de 16 anos.

Na quarta, 24, quando a discussão sobre a “censura 18 anos”, no sentido literal e metafórico, percorria as redes sociais (com jornalistas questionando se a cena merecedora da classificação não era Clara, o personagem de Sonia Braga, espiando uma suruba, e, sim, a equipe protestando em Cannes, um outro filme pernambucano, Boi Neon, de Gabriel Mascaro, anunciou que não se candidataria à seleção de representante brasileiro na corrida ao Oscar. Motivo: a postura recorrente do crítico paulistano Marcos Petrucelli, um dos membros da comissão responsável pela escolha, de ataque a Aquarius e ao seu diretor.

“É lamentável que o Ministério da Cultura, por meio da Secretaria do Audiovisual, endosse na comissão de seleção um membro que se comportou de forma irresponsável e pouco profissional ao fazer declarações, sem apresentação de provas, contra a equipe do filme Aquarius, após o seu protesto no tapete vermelho de Cannes. Aquarius foi o único filme latino-americano na competição oficial de Cannes, tendo sido aclamado pela crítica internacional”, dizia o comunicadode Boi Neon, exibido pela primeira vez e premiado no Festival de Veneza de 2015. Horas depois, a diretora paulistana Anna Muylaert anunciou que Mãe só há uma também se retiraria do processo.

No mesmo dia, o Ministério da Cultura divulgou nota oficial, reforçando que a escolha se dará por “critérios estritamente técnicos”: “A inscrição dos filmes brasileiros postulantes ao Oscar de filme estrangeiro está aberta até o dia 31/8. O Ministério da Cultura reforça a confiança na capacidade e na isenção da comissão escolhida pela Secretaria do Audiovisual. A escolha do filme atende a critérios estritamente técnicos. Até o presente momento, não houve registro de retirada de qualquer candidatura”. O diretor de Aquarius confirma à Continente que o filme segue em disputa. “Quero usar as prerrogativas democráticas de testar o sistema. Se todo mundo saísse, claro que eu sairia e seria um escândalo mundial. Acho incrível o que Anna e Gabriel fizeram. E me parece que Guilherme Fiuza se sentiu constrangido por essa classificação totalmente esdrúxula”, coloca Kleber Mendonça Filho. Enquanto isso, na Alemanha, lembra Kleber, Toni Erdmann, que competiu em Cannes ao lado de Aquarius, foi escolhido o representante do país.

A nota do MinC veio a público quase em concomitância com a disponibilização de um manifestoassinado por intelectuais e artistas estrangeiros contra o impeachment da presidenta eleita Dilma Rousseff. Tariq Ali, Noah Chomsky, Susan Sarandon, Viggo Mortensen, Oliver Stone, Michael Ondaatje e o cineasta vencedor da Palma de Ouro em Cannes, Ken Loach, entre outros, endossaram o documento, que faz um apelo aos senadores: “Esperamos que os senadores brasileiros respeitem o processo eleitoral de 2014, quando mais de 100 milhões de pessoas votaram. O Brasil emergiu de uma ditadura há apenas 30 anos, e esses eventos podem atrasar o progresso do país em termos de inclusão social e econômica por décadas. O Brasil é uma grande potência regional e tem a maior economia da América Latina. Se este ataque contra suas instituições democráticas for bem-sucedido, ondas de choque negativas irão reverberar em toda a região”.

Nesta quinta, 25/8, primeiro dia do julgamento de Dilma no Senado, um outro membro da comissão apontada pela Secretaria do Audiovisual, agora ocupada pelo economista pernambucano Alfredo Bertini, o diretor e produtor mineiro Guilherme Fiúza, anunciou seu desligamento: “Informo que no dia de ontem, comuniquei ao MinC meu desligamento da Comissão Especial de Seleção ao Prêmio de Melhor Filme de Língua Estrangeira (Oscar) da 89ª Premiação Anual por questões pessoais”, escreveu em seu perfil no Facebook.

Na narrativa que se escreve no Brasil de 2016, “nada é por acaso”, diz a personagem de Geraldine Chaplin ao fim de Fale com ela, de Pedro Almodóvar. Tudo se interliga, todos os fatos estão relacionados e todas as questões levantadas vão além da esfera do cinema. Tudo é político no jogo difuso entre trevas e luz que se estende por todo horizonte do país – hoje e nos próximos dias. É preciso estar à altura dos acontecimentos. Como diz o filósofo italiano Giorgio Aganbem, “todos os tempos são, para quem deles experimenta contemporaneidade, obscuros. Contemporâneo é, justamente, aquele que sabe ver essa obscuridade, que é capaz de escrever mergulhando a pena nas trevas do presente”.

Abaixo, leia a repercussão sobre a classificação indicativa de Aquarius e os últimos desdobramentos sobre a seleção para o representante brasileiro no Oscar 2017.

KLEBER MENDONÇA FILHO
cineasta pernambucano, diretor de Aquarius

“A gente recebeu um relatório completo e técnico, feito por profissionais de maneira profissional, por pessoas que realmente trabalham nisso – disso não tenho dúvida alguma. Mas o relatório é burro porque não olha para o filme e para o que o filme é. Não pesa ou contextualiza as cenas de Clara, que é o que um bom sistema de classificação deveria fazer. O relatório coloca Aquarius na mesma condição de NinfomaníacaLove 3D e Bruna Surfistinha, e isso para mim é algo completamente estúpido. Bruna Surfistinha e Tatuagem pegaram 16 anos. Praia do Futuro e Para minha amada morta, que têm cenas de sexo e, no caso de Para minha amada, um pau duro em cena, pegaram 14 anos. Todo mundo sabe bem o que é pornografia e o que é uma imagem de sexo explícito, com penetração e sexo oral. Aquarius tem imagens fortes e cenas de sexualidade bem filmadas em que nunca cruzei a linha. As sequências jogam com a expectativa do espectador. Segundo a cartilha do Ministério da Justiça e Cidadania, sexo grupal é 18 anos. Em Era uma vez eu, Verônica, há uma cena de sexo grupal no filme e Verônica, a heroína e personagem principal, participa dela. Acredito que quem participa ou não, do ponto de vista moral de um órgão de censura, deveria ser levado em conta. No caso de Clara, ela vai ver o que está acontecendo. Ela não participa, e, sim, fica atrás da porta. É tudo filmado à distância do ponto de vista dela. Para mim, falta um pouco mais de inteligência no processo de análise. A sensação que tenho é de que enfiaram o filme num scanner e saiu um relatório automático. E estúpido.”

JOSÉ LUIZ RATTON
sociólogo e professor da UFPE, atualmente em pós-doutorado em Amsterdam, onde viu Aquariusno festival World Cinema Amsterdam

“Na Holanda, a classificação indicativa é feita pelo National Institute for the Classification of Audiovisual Media (NICAM), através de um sistema chamado Kijkwijzer. As faixas de classificação são AL (todas as idades), 6, 9, 12 e 16 (a máxima). Cada filme, além da indicação classificava, traz uma informação adicional através de símbolos (violência, discriminação, medo, uso de álcool e drogas, linguagem grosseira). Nem todos os cinemas colocam a classificação dos filmes nos seus sites. Nos sites do Cine Rialto e do De Balie, onde estão sendo exibidos os filmes do World Cinema Amsterdam (WCA), não há informação sobre a classificação dos filmes. Pesquisei no próprio site do Kijkwijzer e Aquarius não está lá. Há um seriado, chamado Aquarius, que está classificado como não recomendável para menores de 16 anos. Cheguei a pensar que era o filme de Kleber, mas trata-se de uma série. Resolvi pesquisar outros filmes do WCA e descobri que Mãe só há uma, de Ana Muylaert, tem classificação 12 (“potentially harmful to children under 12 years; broadcasting is not allowed before 8:00 pm”). Vi o filme, que também tem cenas de sexo e de uso de ‘drogas’. Boi Neon é classificado como 16 (“potentially harmful to children under 16 years; broadcasting is not allowed before 10:00 pm”). Julieta, de Almodóvar, tem a classificação de 6 (“potentially harmful to children under 6 years”). Não há como saber, mas pelos critérios holandeses, é provável que a classificação de Aquarius ficasse próxima da classificação de Mãe só há uma. Em termos brasileiros, censura 12 anos.”

 CAMILO CAVALCANTE
cineasta pernambucano, autor de A história da eternidade (2014), que teve censura 16 anos.

“Estamos passando um momento delicado, que tem a ver com a questão da direita estar assumindo o comando desse governo golpista. Tudo isso pode ser visto, sim, como uma censura, até essa questão do Oscar. Mas numa democracia a gente tem o direito de ouvir todos os lados. Não viAquarius ainda, não posso opinar sobre a classificação; no entanto, se formos olhar o painel dos filmes comerciais que estão aí, todos com censura 14 e 16 anos, podemos entrar num relativismo muito perigoso. O fato é que acho um absurdo punir um filme porque seus autores e sua equipe têm uma posição política definida. E é preciso dizer que existe uma ditadura, sim, do mercado exibidor. A história da eternidade teve um lançamento pequeno, com 10 cópias, e fez quase 20 mil espectadores, correndo por circuitos alternativos e salas mais voltadas para o cinema de arte. Aqui no Recife, tivemos um público bom no Cinema da Fundação, no Derby, e tentamos lançar no Cinemark para atingir um público de shopping – por que não? Acontece que o Cinemark não honrou a combinação e não exibiu o filme. Na semana em que entramos em cartaz, em 26/02/15, o filme de Sininho, Tinker Bell, que foi feito para home video no mercado americano, chegou como maior lançamento da semana no Brasil, ocupando 400 salas. Essa é a ditadura do consumo perverso.”

CLÁUDIO ASSIS
diretor pernambucano, autor de Amarelo manga (2002), Baixio das bestas (2006) e Febre do Rato(2011), todos com censura 18 anos, e Big Jato (2015), de 16 anos.

“Meus filmes sempre foram censurados. Até Big Jato, que não teve sexo explícito ou sexo frontal, pegou classificação 16 anos. Era um filme para 12 anos, como disse a jornalista Maria do Rosário Caetano. Era um filme para as crianças e para os adolescentes. O que Kleber está passando agora eu passei no ano passado, quando censuraram meu filme na Fundação Joaquim Nabuco e ninguém se responsabilizou (em agosto de 2015, Assis e Lírio Ferreira atrapalharam um debate com a diretora Anna Muylaert depois de uma sessão de Que horas ela volta?, no Cinema do Museu, e, como resultado, foram banidos com suspensão de um ano para seus filmes). Até hoje, não existe um documento comprovando nada. Na época, a gente alertou: isso é a volta da censura. Tudo isso é péssimo para o cinema. Não podemos abrir brecha para a direita. Lamento muito o que vem ocorrendo com Aquarius e sou totalmente contra. Mas o que acontece quando a censura volta é que um dia é com qualquer pessoa, no outro dia é com você. Não se pode proibir uma obra de arte. Meu advogado entrou na Fundaj procurando um documento expresso, que dissesse que o filme estava proibido de passar, e não tinha documento algum. Ou seja, o que fizeram foi censura. E agora pagam na mesma moeda. Não estou feliz com isso, muito pelo contrário, estou triste. Não vi o filme de Kleber, mas pelo que todo mundo me disse, é censura. Censura, entendeu? Também acho que é censura o processo de carta marcada no Oscar. Por isso não boto meus filmes para essa seleção, nunca botei. É coisa de carta marcada.”

CRISTIANA TEJO
jornalista, curadora e pesquisadora pernambucana

“Quando os artistas se reúnem para retirar seus filmes, mesmo que uns tenham menos chance de concorrer e ser escolhido, o que importa é essa movimentação se colocando em contrário a um golpe. Esse golpe é justamente uma reconfiguração do século XXI, em que as coisas são difusas. Em uma cartilha do século XX, as coisas aconteceriam, e aconteceram, de maneira complemente diferente. Hoje, tudo está entremeado e muito mais sutil. O jogo não é tão óbvio e evidente. Quem enxergar o que acontece hoje no Brasil acha que está enlouquecendo. O cinema tem uma capacidade mobilizadora muito grande e muita visibilidade. Sendo uma arte feita por coletividade, é mais fácil, talvez, para lançar luz a essa sutileza da censura.

A postura da equipe de Boi Neon me lembrou muito o boicote internacional e local à Bienal de São Paulo logo após a instalação do AI-5, em dezembro de 1968, e das censuras às bienais da Bahia e da representação brasileira da Bienal de Paris. A segunda Bienal da Bahia, em 1968, teve três trabalhos censurados e, a partir disso, os artistas começaram uma manifestação. Na mesma época, a Bienal de Paris estava fazendo a seleção regional pelo mundo todo. As obras indicadas pela Associação Brasileira de Críticos de Arte, que eram obras mais politizadas, foram censuradas pelo governo, que disse que não iria ter participação brasileira em Paris. A partir daí, o artista americano Gordon Matta-Clark encabeçou um boicote à Bienal de São Paulo em 1969, um boicote super extenso que esvaziou a exposição. O curador era o físico Mário Schenberg, um grande crítico; do ponto de vista dele, a Bienal era de iniciativa privada, e não do governo. Mas a maior parte dos artistas e da crítica achava que não, que qualquer evento que representasse o Brasil naquele momento chancelaria o golpe e o governo militar. A Bienal de São Paulo seguiu esvaziada até 1981, quando os artistas começaram a voltar diante da abertura política que já se desenhava.”

 
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