Pubicado em: qua, set 23rd, 2015

Peles São Novas Plataformas Expositivas. “Desenho Sentimentos sem se Prender a Regras ou Padrões…”

Pinturas em técnicas de aquarelas espalhadas em vários corpos. Pássaros, rabiscos abstratos, seres fantásticos pintados em muros. Paulo Victor Skaz 26 anos, artista visual, pai e um ser inquieto/passivo. Não sendo de agora que nos conhecemos, nossas vidas já haviam se cruzado lá no inicio do ano 2000, ele tinha seus 12 ou 13 anos, eu com meus 19. Desde sempre ele uma criatura calada, discreta, observadora e fascinada pelos HQs, mangás, desenhos e pelos esportes radicais, especificamente o skate e até então pela capoeira. Um pouco mais adiante foi se deixando levar pelo grafite através do constante incentivo do grafiteiro e educador social Charles Welson, os encontros aconteciam na escola municipal Imaculada Conceição em Camaragibe. No decorrer dos caminhos Skaz também fazia aulas de desenhos com o professor e desenhista Roberto Silva.

Em 2003 Paulo Victor desaparece ou teria sido eu? Não importa quem… Ambos seguiram seus caminhos dentro das artes e uma vez ou outra seguíamos a nos cruzar pelas encruzilhadas da vida. Passado tantos anos estamos de volta e uma vez ou outra nos encontramos nas mais diversas vias, inclusive a virtual.

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Ângelo Fábio: Paulo Victor como se deu este fascínio tão coerente e lapidado em teu processo de criação até se adentrar num método de permanência do corpo alheio? Cada tatuagem é única da mesma forma que cada humano é outro… Por onde transitas e como transitas?

P.V: Na maioria das vezes as pessoas que me procuram tem uma ideia do que querem representar com a tatuagem. Então eu tento passar isso pro papel e ao mesmo tempo tentando adaptar ao local do corpo que vai ser feito o trabalho. Mas nesse processo de criação instintivamente acabo colocando algo que me identifica e me liga mais ainda a cada trabalho que vai pra pele.


Ângelo Fábio: Nota-se que em cada processo teu tem uma conexão com trabalhos anteriores isto é algo consciente? Se sim, poderias detalhar?

P.V- Eu não sei bem como funciona, é natural, não sei se é a técnica que dá essa impressão ou a linguagem dos trabalhos que tem o mesmo sentido.

A.F: Como você observa uma pele e quais são os processos para habita-las?

P. V: Observo a pele como suporte pra uma obra eterna. Como uma tela ou uma parede pintamos na rua, que pra mim também é eterna na memória. No meu trabalho não tento diferenciar todos os suportes são distintos.

A.F: Teu deslumbramento pelos pássaros tem alguma relação com o espaço em que você cresceu? Eles sempre estão livres… As cores aquareladas são como flechas que nos levam para algum caminho, teus desenhos não se fecham estão sempre em aberto. 
P.V: Na minha infância acompanhei aqueles senhores que criam pássaros em gaiolas e dão o maior valor ao animal preso. Isso sempre me incomodou muito. Passei a observá-los em liberdade com mais atenção e fiquei fascinado com comportamento a maneira com que eles observam as coisas ao redor, as cores, os movimentos. É uma coisa que não consigo explicar

A.F: Hoje tem uma quantidade de tatuadores que vem trabalhando com a mesma técnica que utilizas como no caso da Jessica Damasseno ou da desenhadora Gabi Xavier. Você acha de que tal estilo tem se transformado em um “fenômeno” ou exista algum tipo risco que o mesmo se banalize?

P.V: Esse estilo na tatuagem é uma coisa recente, isso acaba chamando a atenção de muitos clientes e consequentemente dos tatuares. A parte mais forte no meu trabalho é a aquarela, mas também utilizo várias outras técnicas, gosto de misturar muita coisa, deixa o trabalho mais rico esteticamente. Não me preocupo com banalização do estilo por que o mais importante pra mim é a mensagem que o trabalho pode passar a técnica é só técnica.

A.F: Paulo Victor Skaz e o Estudio Corvo, como se dá junto a relação com o mercado?

P.V: A ideia do Corvo studio é priorizar a arte. Cada tatuador do Corvo te um estilo e valoriza isso. Trabalhamos com desenhos autorais e exclusivos, isso acaba nos satisfazendo como artistas e não como comércio. A grana é merecimento mas a arte é sempre prioridade.

A.F: Arte, politica, família, autoestima e desenvolvimento urbano. Como teu trabalho pode influenciar para o bem estar coletivo e social?

P.V: Qualquer manifestação artística tem esse poder isso é incontestável. Desenho sentimentos (às vezes os meus às vezes o das pessoas) isso já contribui pra o bem estar social. Eu acho. Ahahaha

Uma vez quando estive em São Paulo (2013) na Consolação vi uma jovem com uma bela tatuagem fiquei de cara com o que vi tatuado em corpo. Não consegui me conter e fui perguntar quem tinha feito e pra minha surpresa ela respondeu: Foi um cara de Recife, Victor Skaz…

A.F: Como você ver a arte contemporânea e suas plataformas hoje? Quais são os artistas e conceitos que mais te influenciam além das ruas, dos muros? Como te sentes quando presencias um trabalho teu num outro corpo?

P.V: É sempre satisfatório ver uma pessoa feliz com um trabalho que tem na pele, essa felicidade reflete em mim. Geralmente as minhas ideias vem das coisas que vejo, ouso, nas conversas que tenho com meus amigos. Pra mim arte contemporânea é fazer algo de sua natureza, sem se prender a regras ou padrões.

A.F: E o Rene Magritte e o Salvador Dali…

P.V: Todos Pirados!.. E eu também.

A.F: Falando de novas plataformas artísticas o corpo tem sido um dos principais suportes. Como você percebe isto no universo da Body Art?

P.V: As pessoas estão se desprendendo dos padrões e regras na tatuagem, isso abre um espaço muito grande pra novos estilos, conceitos e técnica que podem ser passadas pra pele. Com isso os artistas tem liberdade de criação maior e evolui constantemente.

A.F: O que melhor te define?
P.V: Cada traço dado. No papel, tela, pele ou parede.

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Lembro-me bem de tua atração pelos muros velhos e lugares “indesejáveis” saias em bando com a galera pra grafitar por ai. O resultado final era algo que abrilhantava os olhos e valorizava algumas áreas inóspitas, e assim seguisse teu caminho mostrando-te do porque estavas aqui. Não faço a mínima ideia de quais são tuas escolhas, porém estas que tem decidido seguir é um caminho cognitivo e cheio de amor.  

Paulo Victor Skaz atua no Studio Corvo e divide lugar com Fernando Moraes. Quem tiver a fim de saber e conhecer um pouco mais desta pessoa basta se chegar no facebook. Facebook.com/PauloVictorSkaz ou pelo Instagram: @skazxim.
O studio Corvo fica no Centro do Recife, ao lado do Shopping Boa Vista, na Rua José Alencar, Edf. Embassador, 4º andar, sala 46.

Por Ângelo Fábio

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