Pubicado em: qua, jul 15th, 2015

Outras Óticas para um Big Brother Cotidiano

 

Como um Xamã urbano Filipe Mendes tem o hábito de registrar o que se vê de cru por ai e por onde passa tem caos e poesia. Ele costuma dizer que absorve demais o que vê, fica doente de tanta miséria nessa cidade. “O mundo real está ali…” Fotografo de ótica inquieta o percebo como um etnógrafo urbano que capta sentidos e lógicas dando movimentos que recria distintas leituras e faz com que o que real se torne uma ficção, e a ficção passe a ter uma releitura do real aos olhos de quem vê.

Este Xamã Urbano lança via web a série documental “Um barraco de travestis, gays e drags. Ocupação Big Brother.” Se trata de um trabalho que levou um longo tempo para ganhar sua forma e resultados, ali o poético, político, sensível e rude se juntam como peças de quebra cabeças em um bairro nobre da zona sul que em uma fábrica abandonada encontra-se moradores de um mundo paralelo onde habitam seres “invisíveis” que os olhos comuns de uma “pseudo normalidade cotidiana” preferem atuar com desdém e desprezo machucando e condenando o simples fato/ato e direito de existir destes humanos que se permitem ser o que realmente é!

- Filipe Mendes a uns dois anos atrás vinha se deparando com a paisagem bela e fantástica da Chapada dos Veadeiros, Góias, registrando e documentando um povoado dali.  Tendo como um de seus trabalhos podemos nos deparar com o belíssimo registro de o “Meu descanso é carregar pedra” que fala da dura rotina de famílias de comunidades quilombolas da região que vivem em um ‘tempo e espaço’ distante de tudo, onde o principal elo de comunicação com outras regiões é uma simples ponte de madeira. Neste documentário podemos ver esplêndidas imagens e depoimentos que saem de maneira espontânea com um vocabulário de “difícil” compreensão; presenciamos ali uma mulher que com luta e suor relata a odisséia que é conduzir sua família. Podemos perceber uma postura matriarcal, porém o patriarcal se manifesta como protagonista desta relação. Um retrato em movimentos de nossa distante realidade urbana, entretanto não tão ausente de outras realidades.

Com sua fotografia impecável e roteiro aleatório que não precisa de muita organização na fala de seus personagens, Filipe consegue relatar tudo sem ter de inventar o que já esta ali. Ele nos faz levar a um distante e desconhecido mundo e tão próximo do nosso dando um estimulo pra que possamos se jogar nesse mundaréu tão cheio de surpresas. Este e outros curtas vocês podem assistir no canal:

Pacífico from BUGIU on Vimeo.

“Ferir a intimidade” talvez seja a melhor expressão para um fotografo que se atreva a documentar o cotidiano e a vida dos outros. Não observar apenas de soslaio e sim se permitir e amar a tod@s os que são marginalizados por vida. O “Grande Irmão” encontra-se por todos os lados em suas constantes vigilas, ninguém esta inerente a ele. Desconstruir a razão e por abaixo qualquer tipo de paradigma e preconceito é reconstruir conceitos e perceber que ainda existem coisas bonitas, seja em nosso cotidiano, ou na comunidade do Big Brother. O que vemos aqui não se trata de um registro com apelações visuais, ou somente a dor de um “barraco” ocupado que expele miséria e depressão, ou um registro de um voyeur que simplesmente chega a algum lugar e rouba as “almas” das pessoas e vai embora expor as desventuras alheias como troféu para os holofotes e colunas sociais.

Filipe Mendes recria esta comunidade e passa a ser um grande irmão dentro da identidade do “Big Brother” ele passa a ser mais um dos tantos aqui.

Este Xamã urbano é fotografo e videasta formado em comunicação social (jornalismo). Um ser “estranho” como algumas vezes falou que somos. E que não é?

Por fim lhes deixo um bate papo super bacana que tive com ele via redes sociais (Facebook/MSN) e para outras informações, apreciações e reflexões basta acessar o site Um Barraco de Travestis, Gays e Drags. Ocupação Big Brother!

……..

Ângelo Fábio
Vamos lá… Filipe você em seus processos costuma atuar de forma cíclica e intensa… como você vê a atual cena fotográfica contemporânea, seja ela dentro ou fora dos circuitos institucionais?

Olhe Ângelo eu sou um desburocrata e também reduzido naquilo que chamam de técnica. Eu não entendo de fotografia, eu busco entender as pessoas. É claro que não quero dizer que não tenho porquês, justamente porque eles me movem. Eu sinto, vou pelo sentimento, vou pelas histórias e pelas amizades feitas ali. Os registros são as fantasias, é a brincadeira, é tudo sempre bonito, é arte, mesmo nos momentos mais delicados da condição humana. Eu vejo esse mesmo sentimento, me refiro a fotografia atual, nas mãos de bons amigos que tenho feito nessa curta caminhada, vejo o amor presente neles e repito, não na fotografia propriamente dita, mas no que nos tornamos ou o que somos através dela.

Ângelo Fábio
Roubando o gancho teu: já que nos tornamos parte da fotografia propriamente dita… como você se sente sendo um captador de almas?

Muitas vezes o que fere, noutras um bandido. Explicarei…sou um Recifense nato mesmo que vindo de Caruaru pequeno. Recife não é uma cidade lindinha de papeis timbrados, abandonada gestão após gestão colhe esse desespero no caminhar das pessoas. Quem anda pelo centrão sabe que existem esquemas de se movimentar, horários e traquejos. Misturando tudo isso com o desleixo de minha imagem corporal que é naturalmente Ser parte daquela verdade, sou um pouco medonho, as pessoas assustam-se comigo mas isso é muito pessoal. Voltando a questão eu me sinto feliz demais porque consigo projetar minhas vontades, contar histórias a minha maneira, livre de regras ou de metas, eu escrevo como quero respeitando a colheita do mamão sem acelerar o seu crescimento com agrotóxicos. Essa é a diferença do documental nos meus trabalhos, estou fora do editorial jornalístico, eu posso usar da arte pra contar e tenho a certeza de que essa liberdade total me fez desenvolver por onde não poderia se houvessem amarras do fato como mercadoria.

Ângelo Fábio
Então quer dizer que teu descanso é carregar pedras..?

(Risos… risos)

Olhe Ângelo Fábio acho que sim. Toda essa beleza e satisfação tem sua balança nas angústias e instabilidade. Como nem todo projeto visa o lucro você sofre mas goza bastante. São caminhos mais difíceis, ser artista independente, tu sabes não é pra qualquer peito. Eu gosto e sofro, quer melhor que isso?

Ângelo Fábio
… rsrs. Parece que somos um pouco sádicos, não? Neste caso a tua ” estranheza” passa a ser algo a favor da conquista para teus processos e registros? E no ato de peitar a todo um sistema qual o “segredo” para se ter o mínimo lucro para a existência cotidiana?

Sim faz parte da crítica aos modelos, além de ter sua rebeldia eu prefiro ser confundido com o digno morador de rua a ser um banhado e imaturo com carteira grossa no bolso. O lucro não existe infelizmente, a grana que faço vem do trabalho com audiovisual, tenho uma micro-produtora e faço documentários e ultimamente comerciais pra TV aberta-local. É o que tem alimentado os trabalhos individuais e os prazeres.

Ângelo Fábio
Na tua série Vale do São Francisco ou melhor, nas tuas andadas pelo sertão tens ali um registro de denúncia; por mais de que ela seja subjetiva… em nenhum momento não te fizeram alguma indireta? Seja na política ou nos setores empresariais?

A obra da transposição do São Francisco é uma grande farsa. De gigantesca proporção é o estupro da terra, como diz um indígena de uma das regiões afetadas, teoricamente deveria levar água as regiões de estiagem severa do Nordeste, mas tudo indica que seja uma manobra que levará água para as grandes lavouras do agronegócio. A obra física é uma avalanche um evidente problema ambiental e cultural daqueles povos, a luta pela água é outra questão indefinida. Os principais afetados são os povos tradicionais, agricultores, indígenas, pescadores, quilombolas e os animais daquela vegetação. Á primeira vista podes deduzir que naquela seca caatinguenta não exista vida, mas a vida é abundante ali.

Houve desconfiança dos operários das empreiteiras mas nada ameaçador e o medo dos moradores porque existem centenas de problemas na presença das obras e dos milhares de trabalhadores numa cidade pequena do interior, os abusos sexuais são incontáveis.

Ângelo Fábio
Dentro destes abusos como os cidadãos urbanos veem o seu entorno, como eles/elas percebem a cidade e a política?

Você se refere aos sertanejos?

Ângelo Fábio
Aos sertanejos e aos da capital.

Distintos. Sábios igualmente mas no interior existe uma lindeza e uma singeleza. São ritmos e preocupações diferentes mas lúcidos da necessária manutenção política de que tanto precisamos, no final das contas não somos nós os culpados pelo cenário de escrotidão política, somos aprendizes desse processo de transformação e engatinhar nacional.

Ângelo Fábio
Como você retrata suas andanças na Bugio filmes? Acreditas que tua estética se enquadre na crista da onda do audiovisual nacional?

Eu estou muito imerso na fotografia atualmente, tenho a continuidade desse trabalho, a segunda parte que envolve as questões da diversidade de gênero numa cidade grande do nordeste. Sujeitos pobres, serventes, funcionários de casas de material de construção, faxineiros de shopping completamente diferente da realidade do sul do país dos gays, travestis e drags brancos, apresentadores de TV, atores e diretores. Eu chamo meu trabalho fotográfico e audiovisual de Sensorização Etnográfica longe das cristas, sou eu em parceria com os sentires dos amigos e com quem topa fazer junto pra construirmos juntos nesse gozo desprezível de Recife.

(Caralho irmão vc ta me espremendo hehhehehehehehe)

Ângelo Fábio
Rsrsrs… Entendo. Mas por fim, para não te espremer mais…Quais são as próximas surpresas que estão por vir?

Explorar esse lado urbano de gênero como alimento de sempre haver uma nova seqüência, um projeto ambicioso de ferir ainda mais a intimidade desses personagens. Diariamente estou acompanhando um grupo e me fazendo parte de suas vidas pra só depois documentar com o mesmo impacto da primeira abordagem. E as outras inserções podem nascer nessa mesma noite depois de duas cervejas e boas conversas hehhehehehe.

Ângelo Fábio
Rsrsrrs. Meu querido Xamã Urbano agradeço seu tempo pra esta entrevista, ou melhor, bate papo e por fim queres indicar uma fotografia que melhor reflita esta tua fase?

Tu vai enfatizar o ensaio da ocupação?

Ângelo Fábio
Sim. “Um barraco de travestis, gays e drags. Ocupação Big Brother!”

Acho que a imagem é essa do ensaio a sequencia do ensaio, desde a 1ª ate a ultima foto conta a historia acho que é isso.

Ângelo Fábio
Blza Filipe. Valeu e boa noite.

Por Ângelo Fábio

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