Pubicado em: qui, jul 2nd, 2015

Ainda hoje prefiro presenciar o futuro com um palmo a frente do meu nariz como um dia criança fui.

Do individualismo caudaloso, aos arremessos grupais faz despertar certa febre de reinvenção dentro de nossa atual “crise econômica” mundial fazendo com quê os sistemas coletivos passem a ser as melhores opções para as construções de diálogos e projeções; sejam elas artísticas culturais, motivacionais para as mais diversas intolerâncias ou as novas diretrizes dos amores. Hoje em meio a tamanhas possibilidades reais/virtuais cada vez mais o individuo passa a necessitar/criar em conjunto a outros. Em tempos de ódio e intolerância, o que mais vale é descobrir novos sorrisos e plantar flores para colher frutos.

Atravessar e romper as barreiras geográficas e econômicas gerando processos independentes que possam exprimir ao máximo a vontade de cada individuo ou coletivo, me faz lembrar certa fase minha infância que durante os anos 80 e 90 pude começar a trilhar meu atual caminho, mesmo que de maneira inconsciente.

O meu pai e minha mãe sempre trabalharam no ramo da culinária. Já meu pai atuou desde cedo em movimentos sociais e sindicais. Cresci num bairro bucólico, na cidade de Camaragibe que naquela época éramos apenas 10 famílias, vivíamos cercados de matas, rios, açudes e vastas pastagens verdes cheio de árvores frutíferas, onde seu bioma era de uma única beleza. Ainda me lembro dos cheiros e da relva… Além disso, pude ver raposas e outros animais selvagens que passavam por ali.

A casa em que pude crescer foi construída ao puro suor de forma coletiva onde nossas famílias se juntavam aos finais de semana; os homens ficavam com os trabalhos pesados (cavando a cacimba e levantando a estrutura da casa) e as mulheres cuidavam do alimento e organizavam as tarefas do dia seguinte e nós crianças tínhamos a responsabilidade de ser felizes durante aqueles instantes. Às vezes ajudávamos com pequenas coisas, ao ato de ir à casa de outro vizinho para buscar alguma ferramenta ou algum alimento que só tinha no quintal da casa dele. Doença era algo difícil de ter, pois éramos cuidados com remédios naturais elaborados por alguma rezadeira dali. Ouvia também os tambores de dois barracões rufarem.

Os toques eram intensos e lindos. Hoje quando relembro me passa um tipo raro de sentimento de que tudo aquilo não passou de uma breve ficçãoem vida. Poistínhamos até barracas de saladas em conservas, sucos da fruta e bebíamos a deliciosa e quase extinta Cajuína e durante a semana nossas mães lavavam as roupas a margem de um rio que corria com águas limpas.

Tudo parecia tão bom, ser criança ali foi aprender a ser o que sou hoje. Que da maneira mais simples e digna pude crescer e perceber do quão é importante o fator coletivo tal qual os impulsos individuais e mesquinhos. Quem não tem seu próprio Rei/Rainha na barriga?

 

2014 e 2015 têm sido períodos de vacas magras no que diz respeito aos incentivos fiscais para os setores artísticos culturais e que as esferas das políticas estatais e privadas não tem deixado muita brecha para os que produzem e criam sonhos. Apenas para alguns que com suas cartas marcadas conseguem se manter neste delirante limbo dos incentivos públicos fiscais.

 

Ao ver no dia de ontem na TV o programa eleitoral político “gratuito” do PCO (Partido da Causa Operaria) me deparo como sempre com suas fortes criticas ao sistema do capitalismo nefasto, ainda assim este partido com suas posturas “radicais” prezam pela democracia utópica das alianças das classes trabalhadoras. Achei algo bastante interessante em seu discurso, saíram a “proteger” o atual governo da presidenta Dilma e o Partido dos Trabalhadores dando sinais de que a bancada conservadora esta num movimento de pré golpe militar.

O discurso do PCO foi ético e sobre tudo incisivos em suas analises sobre as atuais conjunturas das políticas publicas sociais em que vivemos atualmente em nosso país. Não deixaram de ser críticos ao modelo em que o PT tem adotado para a nação, mesmo assim a analise do PCO é de fundamental importância para esta febre em que a população brasileira vive e se deixa confundir. Acredito-me que infelizmente os sensores de plantão irão cortar este programa que pude ver.

E o que isso tem haver com o que relatei em momentos anteriores? Na verdade não sei. Talvez tenha sido o fato de ter recordado os anos 80 e 90. Ter me feito rebobinar a fita quando meu pai era militante e sindicalista, ou talvez por ter visto pela primeira vez o Leonel Brizola num palanque políticoem Camaragibe. Observavatudo aquilo e parecia que o futuro já estava ali diante ao meu nariz. Como era gostoso ser moleque e maloqueiro, cheirar as partes intima das amiguinhas do bairro e fazer coisas proibidas… A globalização já me comia à cabeça ao ler as enciclopédias Barssa e outros livros proibidos.

Ter uma radiola com um passador de Vinil e Fita K7 naquela época era luxo, pois ficávamos esperando o final de semana cheio de ansiedades sintonizado na Rádio Recife FM esperando que lançasse aquele especial de sábado a noite sem intervalo comercial. Cada Fita K7 era bem carinha, gravávamos as canções no lado A e B e ficávamos ouvindo a fita durante uns dois meses até vir outro grupo musical ou artista que gostasse pra gravar um novo som por cima.

Tudo era bastante rústico, simples, poético e primário. Tudo tinha aquele delicioso cheiro e sabor de comida da voinha. Era igual aos circos mambembes que invadia nosso bairro pra nos trazer alegria. Era o desejo e a expiação de ver a MONGA. A mulher que vira Macaco! Uma mistura de medo e prazer. Muitas vezes ouvi dizer: “Não vá pro circo não, pois eles levam as crianças embora.”. E eu uma vez fui com eles por conta própria cheguei até Paudalho, mas resolvi voltar por que me lembrei de minha avó. Naquela época ainda funcionava o trem que ligava todo o estado de Pernambuco ele parava na Estação de Alberto Maia. As 17hs00am eram sagradas ouvir o sinal da Fabrica Braspérola que ficava no bairro da Vila da Fábrica. Camaragibe um dia, também foi uma cidade pura, verde e bonita. Fui um malandrinho de rua que não me arrependo em ter sido. Apesar de todas as pisas que mereci levar.

Hoje presencio gente que com maneiras individuais ou coletivas, bastante inquietas, e as muitas vezes carregadas de dor, passam a inspirar e a produzir sentimentos de forma autônoma ou doentia. Também existem seres diferentes que criam coisas belas. Alguns são mais corajosos que outros que chutando o pau da barraca se libertam na mais desgarrada regra. Por outro lado já existem distintos seres que se deixam estagnar em seus congelamentos mentais utilizando as velhas e eternas desculpas afirmando de que o mundo gira contra ele. Talvez tenha sua razão pra sentir-se assim, igualmente prefiro acreditar na arte que urge para nos indicar os mais variados e apaixonantes caminhos.

Ainda hoje prefiro presenciar o futuro com um palmo a frente do meu nariz como um dia criança fui.

 

Por Fábio Ângelo