Pubicado em: ter, mai 12th, 2015

Revelações das sombras Prt.1

 

Cidar Balan era um caixeiro viajante romeno, jovem e sem lar fixo, não era casado e tinha os pais falecidos. Seus pais eram da Baviera, haviam ido para Budapeste, fugidos do conflito Austro-Prussiano de 1866, eles eram ainda jovens, depois de alguns anos Cidar nascera. Já era o início dos anos 1890, e ele lamentava não ser saxônio, pois estavam mandando todos os jovens de lá para a África, estavam colonizando o norte, mas mesmo assim pensava se conseguiria adaptar-se ao clima mediterrâneo, e dos desertos árabes, bem perto da linha do Equador. Cidar gostava mesmo, do clima serrano da Bohemia, ia de Belgrado a Budapeste, eventualmente ia a Varsóvia, onde não sabia quando falavam polaco, germânico ou eslavo russo, sempre tinha que improvisar por lá. Ele adorava ir a Odessa e ver o mar negro, as linhas russas eram confusas às vezes e ele sempre ganhava noites extras em Kiev, experimentando aquela Vodka com o destilado perfeito. Quando ia até Grodno presenciava o descaso que a população vivia, ele ficava de coração partido, crianças magras e doentes, mães lamentando pelos cantos, homens derretendo o gelo das valas para reaproveitar os alimentos nos esgotos, gente morrendo de inanição, tudo aquilo era terrível, e Cidar não podia evitar falar em alto e bom som, “maldito Czar, imperialista!”. Cidar era amante de leituras socialistas, acreditava que aquilo tudo que lera, era possível de realizar e por isso odiava regimes imperialistas. Serviu por oito anos à academia militar romena, era um cadete, periciado em rastreamento e reconhecimento, mas uma fama nos tempos de oficial o perseguiu até então, sua habilidade com facas era fora do comum. Podia ter seguido a carreira militar, mas a paixão por viajar era maior que um bom ofício.

No momento estava indo até a Transilvânia, o trem carregava um grande lote de charutos vindo da Crimeia, a opinião dele sobre a cidade era; um lugar frio, escuro, onde tudo é longe de tudo e o maior produto que oferecem são os boatos de monstros que se alimentam de sangue humano, tratava tudo com um tédio moldávio que adquirira passando uma temporada em Kishinev, o lote era mesmo para Munique, mas, como não havia linhas férreas do oriente até a Germânia, talvez por motivos políticos ou até folclóricos, o carregamento ia de trem até a Transilvânia, e de lá era enviado a Munique de carroça até a estação, a viagem durava doze dias da Crimeia até a Transilvânia.

O balanço do vagão ainda incomodava, Cidar odiava viajar só, na comitiva ia ele, o caixeiro, Badun Serker, o fiscal de demandas e Rosk Arsene, o fiscal alfandegário. Badun Serker havia ficado em Bender hospitalizado, suspeita de varíola. Rosk Arsene, não era amigo de ninguém, era um homem de quarenta e sete anos, amargo e adúltero, sendo um agente federal estando ali para fiscalizar a carga, não poderia ter envolvimento com os demais. O trem de carga, apelidado de Magnin, estava a todo vapor, chegara a Transilvânia a noite do décimo segundo dia, como combinado. Na estação, estavam os representantes da empresa que comprara o lote, o delegado da cidade acompanhado de dois policiais e alguns funcionários da estação, o maquinista acionou os freios, a fornalha fora abafada, o fole retirado da caldeira, o os carrilhões estavam trotando, deu três giros forçados antes de brecar, as conexões luxavam ao se espremerem, o vapor era liberado por completo pelos exaustores laterais cobrindo quase a estação inteira de fumaça branca, o cheiro do ferro quente e da madeira queimada era até agradável. Uma pá de brasa era retirada da caldeira e jogada no balde de água, causando um chiado.

O maquinista abriu a portinhola, ajeitara o quepe e descera com um semblante de satisfação. Cidar notara o trem brecando, se aprontou e pouco depois de sair para a estação, ele já estava pronto para assinar toda a papelada de entrega do lote, desceu e notara que a conferencia com os homens já havia começado. Estava lá, Rosk Arsene, o fiscal alfandegário, os representantes da empresa que comprara o lote e os oficiais de policia, Cidar chegou perto para acompanhar a reunião. – não, não mesmo, temos um acordo de entrega, e essa entrega já aconteceu aqui! –disse Rosk Arsene, num tom de protesto. – o que está havendo aqui? – perguntou Cidar. – esses homens, estão afirmando que teremos que acompanhá-los até as fronteiras de Zalau, e assim assinarão o contrato de entrega! – respondeu Rosk. – como assim, de Brasov até Zalau, por qual motivo? – Cidar perguntou mais. O delegado tomou o partido de responder. – o motivo meu caro rapaz, é o fato de haver casos de saques no percurso, e como o contrato mostra que devem entregar o lote em Transilvânia, não mostra especificamente onde! – respondeu o delegado. – é isso mesmo, e receberemos o lote em Zalau! – completou um dos representantes da empresa compradora. Cidar puxou Rosk para o canto, para falar a sós. – isso é permitido? – perguntou o jovem. – sim, se o contrato era até a Transilvânia e não até a estação de Brasov, então isso quer dizer que, eles podem requerer receber a carga em Zalau! – respondeu o fiscal alfandegário. Cidar tinha uma quantia em dinheiro para esse tipo de eventualidade, com a indicação do delegado alugou algumas carroças, alocou toda a carga para os transportes, estavam preparados para partir. – então vamos! – falou um dos representantes da empresa compradora. Partiram, Cidar, Rosk Arsene, os dois representantes, que chamavam Bastian e Olaf, o delegado e os dois policiais, todos a cavalos.

Amanhecera e já estavam saindo de Rupea. Cidar na retaguarda perto das cargas, no meio Bastian e Olaf conversavam lado a lado, pareciam tensos, na frente o delegado e os policiais tentavam ignorar os protestos de Rosk. O sol esgueirou-se de um horizonte a outro, era mais um dia indo embora, perderam muito tempo na hospedagem em Jidvei. Chegando perto de Cluj-Napoca, foram atrasados por uma árvore tombada na estrada, Bastian e Olaf estavam inquietos em ficar ali no meio da noite e decidiram contornar por outro caminho, o trabalho de cortar aquela árvore estava por conta dos cocheiros das carroças, que estavam um tanto displicentes. Então estava decidido. – vamos pelo vale, poderemos subir até Zalau! – falou Olaf. Rosk que já estava no limite da tolerância berrou. – vocês insistem em irmos a Zalau, por segurança e agora querem pegar o caminho do bosque em plena madrugada? – os cocheiros começaram a discutir entre eles, falavam em idioma turco. – esses homens são turcos? – comentou Cidar. – sim eles são, mas essa não é a minha maior preocupação aqui! – disse Rosk. – todos estão de acordo, e se ficarmos aqui na estrada, seremos alvos fáceis! – falou o delegado. A caravana pegara o caminho da esquerda, para o vale escuro, estavam arriscando tudo. Era uma estrada de barro batido, estava coberta de folhas secas, cortava uma clareira entre árvores negras, era um caminho perigoso, havia lobos ferozes.

Pouco depois. – parem um pouco, tomei muito do vinho nobre de Jidvei e aquele carneiro parecia em decomposição! – falou Bastian. – preciso me aliviar ali! – todos pararam, causando certo rumorejo nos demais, pois estava muito escuro. Bastian estava pálido e suava frio, pegou uma tocha e levou o mais longe possível, não queria constrangimentos. Vinte minutos depois, todos já estavam impacientes. – bastian! – berrou Olaf. Ninguém respondera. – vamos atrás dele! – sugeriu o delegado. Foram até a iluminação no meio do bosque, chagando lá, viram que a tocha estava fincada no chão e não havia sinal de Bastian. Logo estavam ali, o delegado e os dois policiais, Cidar e Rosk, e Olaf que estava muito inquieto. – aquele desgraçado, estava com o pagamento do lote, eu devia ter desconfiado dele! – comentou Olaf. – o quê, quer dizer que aquele homem sumiu com o dinheiro do lote? – perguntou Cidar. – acalmem-se rapazes, podemos achar uma solução para isso tudo! – tentou mediar o delegado. E naquele momento, gritos se ouviram. Eram dos cocheiros que ficaram lá com as carroças. Os homens apenas viraram a visão para o caminho de volta, mas não voltaram para verificar, poderiam ser lobos famintos, e minutos depois os gritos cessaram. – vamos! – disse o delegado. Eles correram até lá e quando chagaram, todos tinham sumido. – mas, como? – murmurou Cidar. Passavam as tochas e viam marcas de sangue por todos os lados. Os cavalos tinham sumido, até os cavalos das carroças. – como isso aconteceu, em tão pouco tempo? – perguntou Olaf.

Continua…

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